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Na (tua) terra seca



Estirado à sombra, na modorra do entardecer, tem os lábios gretados e a garganta seca. Falta-lhe ânimo para beber.

Desde que ela o deixou, pesa-lhe o corpo a mover-se e, assim, vai-se afundando na imobilidade do tempo sem ela.

Parece-lhe que, a cada alvorada, é um pouco menos homem. Como se uma transparência o fosse consumindo a partir de dentro, até ao momento em que, chegando à derme, o fará desaparecer.

Deambula, horas, sem sair do sítio, perdido num monólogo que lhe dirige, esperando que, da ignorância dela, chegue apaziguamento. É num timbre andrajoso que lhe fala:

- Sabes, Rita, na curva do caminho sinto o teu perfume de maçã madura. Tantos dias, Rita, mastigando as silabas do teu nome e continuam a ser poucas para te cobrir o corpo. Há vezes, Rita, em que os meus olhos se afogam no horizonte, de tanto perscrutar a tua sombra. Onde estás, Rita, que contigo levaste a vontade que me arrancava à terra seca do chão?

Ele, sempre ausente de respostas, tem os sentidos gastos dessa antecipação a derivar em coisa nenhuma. E ela a desconhecer-lhe as palavras. Dos sentimentos só sobram desistências.

Nada em redor tem coerência. As medidas das coisas perderam a razão quando ela levou consigo a métrica. E ele, sem saber traçar caminhos, enraíza-se nos torrões de terra. Torna-se-lhe árida a pele, ficam as entranhas mirradas no ardor da saudade. A fluidez abandona-o. É ela que lhe escorre pelos poros. Talvez se bebesse. Porém, queda-se na secura que tem dela, coibido de viço que o erga. Acomoda-se ao destino estéril, qual sepultura inóspita, consolando-se numa dormência sem sonhos. Só dela, a sede.

Desperta-o, do torpor, um ruído. Pestaneja, pretende abrir os olhos. Uma nesga e, grato, descontrai. São as vestes da morte a roçagar-lhe ao ouvido.

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