Avançar para o conteúdo principal

Na (tua) terra seca



Estirado à sombra, na modorra do entardecer, tem os lábios gretados e a garganta seca. Falta-lhe ânimo para beber.

Desde que ela o deixou, pesa-lhe o corpo a mover-se e, assim, vai-se afundando na imobilidade do tempo sem ela.

Parece-lhe que, a cada alvorada, é um pouco menos homem. Como se uma transparência o fosse consumindo a partir de dentro, até ao momento em que, chegando à derme, o fará desaparecer.

Deambula, horas, sem sair do sítio, perdido num monólogo que lhe dirige, esperando que, da ignorância dela, chegue apaziguamento. É num timbre andrajoso que lhe fala:

- Sabes, Rita, na curva do caminho sinto o teu perfume de maçã madura. Tantos dias, Rita, mastigando as silabas do teu nome e continuam a ser poucas para te cobrir o corpo. Há vezes, Rita, em que os meus olhos se afogam no horizonte, de tanto perscrutar a tua sombra. Onde estás, Rita, que contigo levaste a vontade que me arrancava à terra seca do chão?

Ele, sempre ausente de respostas, tem os sentidos gastos dessa antecipação a derivar em coisa nenhuma. E ela a desconhecer-lhe as palavras. Dos sentimentos só sobram desistências.

Nada em redor tem coerência. As medidas das coisas perderam a razão quando ela levou consigo a métrica. E ele, sem saber traçar caminhos, enraíza-se nos torrões de terra. Torna-se-lhe árida a pele, ficam as entranhas mirradas no ardor da saudade. A fluidez abandona-o. É ela que lhe escorre pelos poros. Talvez se bebesse. Porém, queda-se na secura que tem dela, coibido de viço que o erga. Acomoda-se ao destino estéril, qual sepultura inóspita, consolando-se numa dormência sem sonhos. Só dela, a sede.

Desperta-o, do torpor, um ruído. Pestaneja, pretende abrir os olhos. Uma nesga e, grato, descontrai. São as vestes da morte a roçagar-lhe ao ouvido.

Comentários

Mensagens populares deste blogue

It’s beginning to look a lot like Christmas.

  Is it? Montei a arvore. O presépio. Fiz arroz doce. Acendi as luzinhas e inspirei fundo o ar frio a ver se dezembro entrava. Não sei o que se passa com o tempo. Ou se é com o tempo que se passa. Faltam 20 dias para o Natal e eu esqueci-me da playlist pirosa e da coroa do advento. As figuras do presépio parecem-me só figuras. Comi uma rabanada que me enjoou ao ponto de prometer não comer nenhuma mais. Se calhar não é o tempo. Se calhar sou eu, que ando perdida por setembro de 2020, quando os pores do sol eram intermináveis e cria que no ano seguinte já tudo estaria bem. O ano passado aguentei o Natal esquisito, a ausência de abraços, de colos, de mesas barulhentas, de jantares com amigos, de famílias sem medos. O virar do ano tranquilo, resguardado, sem fogos de artificio e outras companhias, pareceu-me um bom augúrio para o que viria em 2021. Mas este ano está difícil. Não me saem da cabeça as palavras à mesa do dia 1 “tenho a sensação que 2020 vai ser um ano extraordin...

As meninas vão para a escola

  A natureza prossegue, indiferente. Todos os anos, quando começa setembro, daquela terra adormecida e inóspita, um caule verde, comprido, fura o seu caminho que culmina numa flor de campânula cor-de-rosa. Ensinaram-nos, na ilha Terceira, depois de cavarmos com as mãos os bolbos, à beira da estrada, que se chamam "meninas-vão-para-a-escola" por florirem sempre nesta altura do ano. Passaram 22 anos desde que ouvimos essa história. No dia 1 de setembro de 2004, quando foi cercada a escola de Beslan, na Rússia, que resultou na morte de mais de 330 pessoas, entre as quais 186 crianças que regressavam à escola, o vaso também floriu. Nesse ano, passou a ter por companhia um anjo branco a lembrar os meninos que em mais nenhum setembro voltariam à escola. Este ano, em todo o mundo, o regresso à escola é diferente. As meninas-vão-para-a-escola e os meninos também, porque tem de ser. Para bem deles, dos pais, dos professores, da economia. Com mais receios ou menos, com a angústia mai...

Se ele deixasse

Senta-se num dos lados da mesa, à frente dela. Ela recosta-se, cruza as mãos abaixo do peito e sorri-lhe.  Ele olha-lhe para o decote e espera. Não quer começar. Já sabe como vai ser: ela vai continuar a sorrir e a incentivá-lo a falar, ele vai responder com monossílabos e encolher de ombros e ela vai tentar adivinhar o que ele não está a dizer. Ele vai ficar cada vez mais impaciente, pensar no telemóvel sem som guardado no bolso, senti-lo vibrar, sabendo que não lhe pode mexer, e começará um tamborilar nervoso com os dedos na superfície da mesa. Ela perceberá e, sem deixar de sorrir, irá perguntar-lhe se quer atender. Ele, encolhendo os ombros mais uma vez, responderá que não é urgente. E não é. A única urgência que tem é de sair dali, de voltar ao conforto do seu silêncio. Ela está a tentar ajudar, ele sabe. Não é porque gosta dele, provavelmente não gosta mesmo nada dele. Atualmente, é difícil gostar-se dele. Ele também não gosta dela. Cobiça-lhe o decote...