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beira-mar de 6ª feira

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De Philip a Sócrates

  Começo já por avisar que estou de mau humor, portanto daqui não vai nada de bom. Quem quiser continuar a ler, faça favor, mas fica prevenido que vai ser um bocado ácido. Adiante. O primeiro assunto que me causou um certo engulho foi a morte de Philip, Duque de Edimburgo. O príncipe—consorte (ou com sorte, como queiram). Alguns acharão que lhe saiu a sorte grande. Ele, por assim dizer, um refugiado vindo da Grécia. Outros dirão que lhe custou cara a entrada na monarquia britânica. Queria ser rei. Não foi. Dizia um dos filhos, a propósito da vida do pai, como ele foi fantástico no apoio à mãe e como a deixou sempre brilhar, sem lhe tentar fazer sombra. Ouvi um comentário semelhante, esta manhã, num programa de rádio sobre desigualdade de género, que havia sido feito a propósito do, também artista, marido da pintora Vieira da Silva. Que também ele se apagara, para deixar sobressair a mulher. Ora vamos lá por os pontos nos is. Eles, os abençoados maridos, não “deixaram” coisa nenhu

Estamos no fim da Quaresma.

Como católica, este costuma ser o período do ano em que me recolho, em que me revejo, em que sou juiz de mim própria, em que me proponho a fazer uma caminhada melhor. Costumo chegar ao Domingo de Páscoa com a confiança de que, apesar de estar muito aquém, estou a caminhar e vou no sentido certo. E isso conforta-me e prepara-me para o que vier. Então, o que mudou? Não foi a fé. Não foi a certeza de que existe algo muito maior do que eu. Não foi sequer a certeza de que um dia, quando isto aqui deste lado chegar ao fim, vou prestar contas do que fui, do que fiz, dos meus erros e tentar equilibrar a balança com o que fiz de bom, o que dei, o que amei. Estou convencida de que assim será e estou preparada para aceitar e assumir o caminho que percorrer até lá. Nada disso mudou. O que mudou, foi o que sinto que pesará nesse juízo. Não porque mudaram as crenças que tenho naquilo que é certo, que é importante, que vale. Pelo contrário. O que mudou é que deixei de acreditar no juízo dos h

Crónica de uma violência anunciada - 5

  É muito cedo. Os candeeiros da rua ainda estão acesos e o edifício está quase vazio. Apenas um agente, sentado à secretária, ouve a mulher à sua frente, com uma expressão condescendente. Faz rabiscos no bloco quadriculado, enquanto a pressão nas têmporas lhe recorda os excessos da noite anterior. A mulher tem uma equimose abaixo do olho esquerdo e um corte no lábio. A voz é fatigada, vazia de emoções. Apenas o brilho nos olhos de gato, que mudam de tom enquanto ela fala, mostram resquícios de uma força antiga. Na noite anterior, quando no telejornal vira a mulher que apareceu morta na praia, Helena tomou uma decisão. De manhã pensou ligar a Laura e pedir-lhe que a acompanhasse à esquadra, como fizera há alguns anos, mas foi impedida pela vergonha. Retirara a queixa, nessa altura, e deixara de responder às chamadas preocupadas de Laura. Há de ligar-lhe mais tarde, dizer-lhe que desta vez será mais forte. O agente (Victor Alves, é como se chama) parece distraído e Helena não tem a

Crónica de uma violência anunciada - 4

A água arrefeceu. Laura acorda com frio e demora a perceber onde está. Tem a pele dos dedos engelhada e o pescoço dorido, quando se levanta para abrir o chuveiro. De pé, deixa a água quente escorrer-lhe pela cabeça, fechando os olhos. Tem a respiração irregular, revive, perturbada, as sensações do sonho. Acomete-a a impressão de que havia um sinal oculto, no que sonhou. Como um aviso. Num esforço metódico recordar os detalhes: Estava numa sala austera, mal iluminada, revestida a painéis de cerejeira. No centro da sala, exatamente no ponto onde uma luz difusa incidia, encontrava-se uma mulher, de braços cruzados sobre o peito e o olhar cor de desalento. As feições eram tão suaves, que pareciam a desvanecer. Uma voz forte, polida como os painéis das paredes, fez-se ouvir “acha que alguém acredita nessa história?” E a mulher, ouvindo, encolheu-se mais sobre si própria. Havia pessoas na penumbra, das quais apenas se distinguiam contornos, mas Laura conseguia perceber que eram mai

Crónica de uma violência anunciada - 3

  A casa está silenciosa. No telemóvel, pisca a luz de nova mensagem. Sem abrir, Laura vê as primeiras palavras: “ainda estou atrasado…”.  De novo, sente invadi-la uma sensação que se assemelha a um cansaço muito profundo. Decidida a sucumbir-lhe, prepara um banho de imersão. Vê o fio de gel escorrer para o fundo da banheira, e deixa acumular-se uma quantidade maior que o necessário. Abre a torneira deixando a espuma formar-se, enquanto acende velas e põe a tocar o programa radiofónico da noite. Acha reconfortante a voz profunda do locutor. Sente-se menos sozinha. Despe-se devagar, admirando os contornos do corpo à luz tremeluzente das velas. Ocorre-lhe que é um desperdício e zanga-se. Ela é um desperdício, pensa. O seu corpo, que o marido não venera, é um desperdício. Queria outro olhar de admiração para além do seu. Percebe que anseia pela validação masculina e zanga-se ainda mais. Ao entrar na banheira, porém, deleita-se com o contraste entre a água quente e a espuma fria e deix

Sustos

    O que é um susto? O que é que me assusta? Na sequência de uma conversa a propósito de filmes de terror, dei por mim a meditar sobre o assunto. Susto Medo   profundo   e   repentino ;  sobressalto .   Medo   Estado   emocional   resultante   da   consciência   de   perigo   ou   de   ameaça ,   reais ,  hipotéticos   ou   imaginários .  =  FOBIA ,  PAVOR ,  TERROR in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa Portanto, susto, é aquele medo que nos toma de assalto. Corta a respiração, faz soltar um grito involuntário, levar a mão à boca, fechar os olhos. Eu gosto muito de filmes de terror. E de sustos. Não me fazem dormir mal, nem me causam receios quando me levanto a meio da noite e está tudo escuro. Depois daquele choque de adrenalina, compensado com açúcar das pipocas, acendo a luz da sala, e esta tudo bem. O paranormal não me causa desassossego, não sei se por puro ceticismo, se por uma ligeira psicopatia. Os meus desassossegos são outros. Muito mais palpáveis, muit

Crónica de uma violência anunciada - 2

  Laura permanece sentada no sofá, sem dar conta do tempo a passar. Já não é na mulher morta na praia que pensa. Pensa em Helena. Quando a conheceu, Helena irradiava vivacidade. Tinha olhos de gato que mudavam de cor consoante as emoções. Podiam ser amarelo rancoroso, quase manteiga rançosa, podiam ser brilhantes como pálidas esmeraldas. Tudo em Helena era paixão, era forte, era puro. Plena de convicções e vontades. Laura refletia muitas vezes que gostaria de ser um pouco assim, ter aquela força. Até ver Helena quebrada. Na queda, Helena também foi grandiosa. Partiu-se com estrondo, estilhaços a voar por todo o lado. E foi assim, em cacos, que Laura a encontrou. Foi assim que a apanhou do chão, com o sangue seco no rosto e o lábio inchado, o corpo a tremer, quase nu. A blusa rasgada a denunciar todo o estrago interior. Levou Helena ao hospital e acompanhou-a à esquadra. Sentou-se com ela à beira-mar e pegou-lhe na mão. As ondas recolhiam, enrolavam e espraiavam aos seus pés numa

Querer ou não querer, não é questão

  Somos seres sociais. Os nossos quereres ou não quereres são fortemente condicionados por uma série de regras e convenções. E até convém que assim seja, partindo do pressuposto que vivemos em países democráticos, livres, onde a cada indivíduo é permitido fazer escolhas, dentro dos limites da lei e sem interferir com direitos alheios. Hoje ouvi uma notícia curiosa, mas não inédita, sobre a polémica no Qatar relacionada com o facto de, numa prova do circuito mundial de voleibol de praia, as atletas serem obrigadas a jogar usando calças e camisola, em vez de bikini. São já várias as vozes a repudiar esta imposição. Aqui estamos no outro lado do espectro (ainda não no extremo a que corresponde a violação dos direitos humanos, mas a caminho), quando a sociedade impõe regras que atentam contra a liberdade individual. Não podemos, nem devemos, compactuar com situações limitadoras de direitos fundamentais como seja, neste caso, a perda do direito a envergar o equipamento oficial de determin

Crónica de uma violência anunciada - 1

Laura olha a mulher encolhida na cadeira à sua frente. Observa-lhe o pulso negro.   Ouve-a com o mesmo desinteresse de quem folheia uma revista gasta, na sala de espera. - Ele não queria magoar-me. – explica ela - Estava só a segurar-me. Eu é que fico marcada com muita facilidade. Laura está cansada. Nota as raízes oleosas do cabelo da mulher, o risco a mostrar a falta de tinta. Não consegue evitar uma ponta de desdém. Entende com repulsa do marido. Pesa-lhe a vergonha por esse pensamento, mas não tanto que a arranque à letargia. - Já pensou deixá-lo? – pergunta, sem verdadeiro interesse. A outra arregala os olhos. Responde-lhe com a voz vibrante de incredulidade. - O meu marido ama-me, doutora! Não fale do que não sabe! Dê-me a receita, por favor, que tenho pressa. Escreve a prescrição. Está cansada. Quer acabar o dia e ir para casa. Pega na folha que sai da impressora e estende-a à mulher. - Aqui tem. Não se engane na dose. Precisa de mais alguma coisa? A mulher fit