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Crónica de uma violência anunciada - 5

 


É muito cedo. Os candeeiros da rua ainda estão acesos e o edifício está quase vazio. Apenas um agente, sentado à secretária, ouve a mulher à sua frente, com uma expressão condescendente. Faz rabiscos no bloco quadriculado, enquanto a pressão nas têmporas lhe recorda os excessos da noite anterior. A mulher tem uma equimose abaixo do olho esquerdo e um corte no lábio. A voz é fatigada, vazia de emoções. Apenas o brilho nos olhos de gato, que mudam de tom enquanto ela fala, mostram resquícios de uma força antiga.

Na noite anterior, quando no telejornal vira a mulher que apareceu morta na praia, Helena tomou uma decisão. De manhã pensou ligar a Laura e pedir-lhe que a acompanhasse à esquadra, como fizera há alguns anos, mas foi impedida pela vergonha. Retirara a queixa, nessa altura, e deixara de responder às chamadas preocupadas de Laura. Há de ligar-lhe mais tarde, dizer-lhe que desta vez será mais forte.

O agente (Victor Alves, é como se chama) parece distraído e Helena não tem a certeza se ele está a anotar os factos com precisão. Olha-a com sobranceria, deixando-a nervosa. Pressente que não devia ter vindo sozinha.

Começa a ficar confusa. Quer organizar os pensamentos e transmiti-los de forma clara, mas o olhar enfastiado do agente Alves intimida-a. Tem a certeza que ele a despreza.

Victor integrara a divisão de investigação criminal da polícia de segurança pública, convicto que faria carreira defendendo as donzelas que o mundo maltratava. Trazia no coração o ardor da juventude.

A inércia do sistema e a burocracia foram-lhe apagando as ilusões. O whisky apaziguou-lhe a ousadia. Aos seus olhos, as delicadas donzelas foram surgindo como aquilo que eram de facto eram: mulheres amarrotadas pela vida.

Com crescente rancor, começou a abominar o descuido delas, as nódoas nas camisolas, os cabelos oleosos, a sombra do buço por tirar. Numa completa inversão de valores, passou a detestá-las, às mulheres, e aos seus testemunhos patéticos. Odiou a sua submissão, a fraqueza com que consentiam abusos e maus tratos. Culpou-as pelo fracasso da carreira, que imaginara auspiciosa, e identificou-se com os homens que as maltratavam.

Helena não consegue prosseguir. Empurrando a cadeira para trás, levanta-se e balbucia uma desculpa enquanto sai atabalhoadamente, em direção ao elevador.

A porta está a fechar-se quando uma mão a trava. Helena vê, inquieta, o agente Alves a entrar. O olhar dele é agora arguto, fixo nela. Instintivamente, ela recua para o canto, sentindo as pernas fraquejarem. O agente aproxima-se e ela consegue cheirar o whisky no hálito morno. Fica enjoada. Ele pousa-lhe a mão no ombro e deixa-a deslizar até ao seio. Comprime-lhe o corpo contra a parede do elevador, com a força do seu.

- Se vocês não fossem umas gajas tão reles – diz, cuspindo as palavras.

Nesse instante, o elevador dá um solavanco e toca a campainha de paragem. Ele vira-lhe as costas e sai, assim que as portas abrem.

Helena colapsa. Escorrega até ao chão, onde fica sentada na poça da sua própria urina.

Quando a encontrarem, minutos mais tarde, não vai contar o que se passou.

Nem vai telefonar à Laura.

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