Avançar para o conteúdo principal

Dia da mãe



Subitamente, por uma qualquer razão que não se explica e sem pré-aviso que me prepare, Saramago traz-me Strauss. Então, no canto de uma varanda virada a poente, o que parecia presunção se fosse escrito, reveste-se da luz perfeita.
Enquanto o sol se filtra através das pétalas pálidas da hortência sequiosa e a veste de mil tons de branco-rosa, nos meus lábios desenha-se um sorriso de gratidão.
Está um calor demasiado para esta tarde de maio, a vontade de me mexer quebrada pelo vinho do almoço, o corpo mole a derreter-se na espreguiçadeira. Do telemóvel toca uma playlist partilhada à distância de 317km que, mais do que por wifi faz-se chegar através de um fio transparente de sentimentos muito fortes. São valsas de Strauss que vibram na minha varanda, a recordar tempos antes de mim, que eu não cheguei a conhecer. São os meus olhos quase a fechar-se, perdidos nas linhas de escrita densa, cheia, quando se fixam numa harmónica e num cego que numa rua qualquer, toca estas valsas também. O cego maravilha a rua, num momento de felicidade irrepetível, e sai da página amarelada para se juntar às minhas notas, ao vibrar dos meus sentidos, para vir pulsar por um instante numa varanda que, de poente, se vira para sul e encurta distâncias.
Há muitas razões que não se explicam e algumas, de tão óbvias, dispensam explicações. Pudesse eu dizer sem palavras todas os pensamentos que hoje trago emaranhados na garganta, e seria assim, como uma valsa de Strauss e raios de sol a beijar ao de leve pétalas pálidas.

É domingo. É dia da mãe.
O dia trouxe-me música, flores de aromas intensos e pétalas carnudas, paladares salgados e doces, vinho encorpado e sol a adormecer-me na varanda.
É dia da mãe, e toda a gratidão que eu sinto e que não teria palavras para dizer, disse-se assim, quando por causa da minha mãe, da mãe dela e da mãe que eu sou, Saramago saiu das páginas de um livro para tocar Strauss.

Obrigada meus amores.

Comentários

Enviar um comentário

Mensagens populares deste blogue

It’s beginning to look a lot like Christmas.

  Is it? Montei a arvore. O presépio. Fiz arroz doce. Acendi as luzinhas e inspirei fundo o ar frio a ver se dezembro entrava. Não sei o que se passa com o tempo. Ou se é com o tempo que se passa. Faltam 20 dias para o Natal e eu esqueci-me da playlist pirosa e da coroa do advento. As figuras do presépio parecem-me só figuras. Comi uma rabanada que me enjoou ao ponto de prometer não comer nenhuma mais. Se calhar não é o tempo. Se calhar sou eu, que ando perdida por setembro de 2020, quando os pores do sol eram intermináveis e cria que no ano seguinte já tudo estaria bem. O ano passado aguentei o Natal esquisito, a ausência de abraços, de colos, de mesas barulhentas, de jantares com amigos, de famílias sem medos. O virar do ano tranquilo, resguardado, sem fogos de artificio e outras companhias, pareceu-me um bom augúrio para o que viria em 2021. Mas este ano está difícil. Não me saem da cabeça as palavras à mesa do dia 1 “tenho a sensação que 2020 vai ser um ano extraordin...

As meninas vão para a escola

  A natureza prossegue, indiferente. Todos os anos, quando começa setembro, daquela terra adormecida e inóspita, um caule verde, comprido, fura o seu caminho que culmina numa flor de campânula cor-de-rosa. Ensinaram-nos, na ilha Terceira, depois de cavarmos com as mãos os bolbos, à beira da estrada, que se chamam "meninas-vão-para-a-escola" por florirem sempre nesta altura do ano. Passaram 22 anos desde que ouvimos essa história. No dia 1 de setembro de 2004, quando foi cercada a escola de Beslan, na Rússia, que resultou na morte de mais de 330 pessoas, entre as quais 186 crianças que regressavam à escola, o vaso também floriu. Nesse ano, passou a ter por companhia um anjo branco a lembrar os meninos que em mais nenhum setembro voltariam à escola. Este ano, em todo o mundo, o regresso à escola é diferente. As meninas-vão-para-a-escola e os meninos também, porque tem de ser. Para bem deles, dos pais, dos professores, da economia. Com mais receios ou menos, com a angústia mai...

Se ele deixasse

Senta-se num dos lados da mesa, à frente dela. Ela recosta-se, cruza as mãos abaixo do peito e sorri-lhe.  Ele olha-lhe para o decote e espera. Não quer começar. Já sabe como vai ser: ela vai continuar a sorrir e a incentivá-lo a falar, ele vai responder com monossílabos e encolher de ombros e ela vai tentar adivinhar o que ele não está a dizer. Ele vai ficar cada vez mais impaciente, pensar no telemóvel sem som guardado no bolso, senti-lo vibrar, sabendo que não lhe pode mexer, e começará um tamborilar nervoso com os dedos na superfície da mesa. Ela perceberá e, sem deixar de sorrir, irá perguntar-lhe se quer atender. Ele, encolhendo os ombros mais uma vez, responderá que não é urgente. E não é. A única urgência que tem é de sair dali, de voltar ao conforto do seu silêncio. Ela está a tentar ajudar, ele sabe. Não é porque gosta dele, provavelmente não gosta mesmo nada dele. Atualmente, é difícil gostar-se dele. Ele também não gosta dela. Cobiça-lhe o decote...