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Mensagens

Cinderela

(Às queridas Cinderelas que (ainda) sonham com o Príncipe) A Cinderela voltou para casa, abóbora no colo, vestido azul, passava muito da meia-noite. Não perdeu um sapatinho, mas descalçou as sandálias cujos saltos de agulha lhe garantiam os dez centímetros que lhe faltavam em pernas. Caminhou descalça e não houve príncipe nenhum a enfiar-lhe a sandália no pé. Pobre Cinderela! - O meu nome é Pedro, e o teu qual é? - Ela corou um pouquinho e respondeu baixinho - Sou a Cinderela - mas quando a noite o envolveu, ele não sonhou com ela. Então, bate, bate coração. A Cinderela brindou a tudo o que havia a brindar nessa noite. Uma noite de sonho, um conto de princesas em que o príncipe não apareceu. Mas os ratinhos, sim. Estavam lá todos! E a Cinderela esvoaçou feliz, no seu fantástico vestido azul. E num desses momentos, em que os sentimentos falam por si, ele não pegou na mão dela, mas sabes, Cinderela, a vida é assim. Então, bate, bate coração. A Cinderel...

Carta às amizades perdidas

Saudades tuas m! Se ainda existisses ias-me ouvir e íamo-nos rir de tudo isto. Para onde levaste o teu sarcasmo? Se tivesses sabido como me fez falta. “Há uma linha muito ténue que separa a criatividade da loucura”. De que lado da linha ando eu? Há quanto tempo a criatividade me abandonou? Como precisava de ti para vencer estes dias. Tu despertavas o melhor pior de mim. Contigo eu era boa a ser má. Quem me dera ter-te dito. Quem me dera que cá estivesses. Se eu estivesse a ser parva também me dizias. Na cara, sem contemplações. “Basta de autocomiseração. Respondeu ele 14 horas depois” - foi um sms teu em resposta a choraminguices minhas. Demorei meses a perceber que durante aquelas horas, catorze, que me fizeste esperar, lutavas contra a raiva que contiveste antes de responder (ou então não percebi nada). Respondeste-me com uma crueza, a transpirar desprezo, que me atingiu em cheio e acabou com as lamurias no mesmo instante. Eras ...

A vida em prateleiras

Hoje vou ensinar-vos uma lição! (Eheheh! Reparem no ar presunçoso com que escrevo isto)  Pronto, não é nenhuma lição, vou só partilhar uma ideia convosco. Melhor assim? (já vos estava a imaginar “olha esta, com a mania…”) Então, começamos com uma pergunta: Já alguma vez olharam para a vossa vida como quem olha para uma estante cheia de prateleiras? Como aquelas do ikea com muitas prateleiras, uma billy talvez, ou aquelas aos quadrados... qualquer coisa, não interessa. Foquemo-nos no que importa: Uma estante e muitas prateleiras. Portas e gavetas não, nem fechaduras. Porquê? lá chegaremos. Agora, olhem para as prateleiras e vão ver que estão muito desorganizadas, com poeira e falta de espaço. Talvez não descubram facilmente as coisas importantes, ao passo que algumas coisas horríveis saltam mesmo à vista, enfim, um caos. (se não for esse o caso, se a estante da vossa vida não se vos mostrar pelo menos um pouco caótica, das duas uma: ou sou eu que não ...

44.

A segunda metade do ano começa na véspera do meu aniversário, o que quer dizer que entro num novo ano de vida exatamente a meio do ano civil. O que é que isso interessa? Normalmente, nada. Nunca sequer tinha pensado sobre isso, até ter começado a ouvir, no passado dia 1, as expectativas que as pessoas guardam para a segunda metade de 2020. Este é o ano em que somos unânimes quando desejamos que a segunda parte seja francamente melhor do que a primeira. Não consigo deixar de me lembrar das palavras do meu pai à mesa de almoço no dia 1 de janeiro: Estou a gostar de 2020! Lembro-me que, nessa noite, escrevi um post a valida-las, recordando como vencêramos o tempo quando o tempo nos fugia. Foi um otimismo de pouca duração. Ainda janeiro ia pela metade e levámos a primeira chapada. Teimosos, encaixámos o golpe, endireitámos os ombros, inventámos sorrisos que não tínhamos e coragens que não sentíamos, prontos para seguir em frente.  No final de janeiro a coisa melhorou e d...

Se ele deixasse

Senta-se num dos lados da mesa, à frente dela. Ela recosta-se, cruza as mãos abaixo do peito e sorri-lhe.  Ele olha-lhe para o decote e espera. Não quer começar. Já sabe como vai ser: ela vai continuar a sorrir e a incentivá-lo a falar, ele vai responder com monossílabos e encolher de ombros e ela vai tentar adivinhar o que ele não está a dizer. Ele vai ficar cada vez mais impaciente, pensar no telemóvel sem som guardado no bolso, senti-lo vibrar, sabendo que não lhe pode mexer, e começará um tamborilar nervoso com os dedos na superfície da mesa. Ela perceberá e, sem deixar de sorrir, irá perguntar-lhe se quer atender. Ele, encolhendo os ombros mais uma vez, responderá que não é urgente. E não é. A única urgência que tem é de sair dali, de voltar ao conforto do seu silêncio. Ela está a tentar ajudar, ele sabe. Não é porque gosta dele, provavelmente não gosta mesmo nada dele. Atualmente, é difícil gostar-se dele. Ele também não gosta dela. Cobiça-lhe o decote...