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Mensagens

Crónica de uma violência anunciada - 5

  É muito cedo. Os candeeiros da rua ainda estão acesos e o edifício está quase vazio. Apenas um agente, sentado à secretária, ouve a mulher à sua frente, com uma expressão condescendente. Faz rabiscos no bloco quadriculado, enquanto a pressão nas têmporas lhe recorda os excessos da noite anterior. A mulher tem uma equimose abaixo do olho esquerdo e um corte no lábio. A voz é fatigada, vazia de emoções. Apenas o brilho nos olhos de gato, que mudam de tom enquanto ela fala, mostram resquícios de uma força antiga. Na noite anterior, quando no telejornal vira a mulher que apareceu morta na praia, Helena tomou uma decisão. De manhã pensou ligar a Laura e pedir-lhe que a acompanhasse à esquadra, como fizera há alguns anos, mas foi impedida pela vergonha. Retirara a queixa, nessa altura, e deixara de responder às chamadas preocupadas de Laura. Há de ligar-lhe mais tarde, dizer-lhe que desta vez será mais forte. O agente (Victor Alves, é como se chama) parece distraído e Helena não te...

Crónica de uma violência anunciada - 4

A água arrefeceu. Laura acorda com frio e demora a perceber onde está. Tem a pele dos dedos engelhada e o pescoço dorido, quando se levanta para abrir o chuveiro. De pé, deixa a água quente escorrer-lhe pela cabeça, fechando os olhos. Tem a respiração irregular, revive, perturbada, as sensações do sonho. Acomete-a a impressão de que havia um sinal oculto, no que sonhou. Como um aviso. Num esforço metódico recordar os detalhes: Estava numa sala austera, mal iluminada, revestida a painéis de cerejeira. No centro da sala, exatamente no ponto onde uma luz difusa incidia, encontrava-se uma mulher, de braços cruzados sobre o peito e o olhar cor de desalento. As feições eram tão suaves, que pareciam a desvanecer. Uma voz forte, polida como os painéis das paredes, fez-se ouvir “acha que alguém acredita nessa história?” E a mulher, ouvindo, encolheu-se mais sobre si própria. Havia pessoas na penumbra, das quais apenas se distinguiam contornos, mas Laura conseguia perceber que eram mai...

Crónica de uma violência anunciada - 3

  A casa está silenciosa. No telemóvel, pisca a luz de nova mensagem. Sem abrir, Laura vê as primeiras palavras: “ainda estou atrasado…”.  De novo, sente invadi-la uma sensação que se assemelha a um cansaço muito profundo. Decidida a sucumbir-lhe, prepara um banho de imersão. Vê o fio de gel escorrer para o fundo da banheira, e deixa acumular-se uma quantidade maior que o necessário. Abre a torneira deixando a espuma formar-se, enquanto acende velas e põe a tocar o programa radiofónico da noite. Acha reconfortante a voz profunda do locutor. Sente-se menos sozinha. Despe-se devagar, admirando os contornos do corpo à luz tremeluzente das velas. Ocorre-lhe que é um desperdício e zanga-se. Ela é um desperdício, pensa. O seu corpo, que o marido não venera, é um desperdício. Queria outro olhar de admiração para além do seu. Percebe que anseia pela validação masculina e zanga-se ainda mais. Ao entrar na banheira, porém, deleita-se com o contraste entre a água quente e a espuma fr...

Sustos

    O que é um susto? O que é que me assusta? Na sequência de uma conversa a propósito de filmes de terror, dei por mim a meditar sobre o assunto. Susto Medo   profundo   e   repentino ;  sobressalto .   Medo   Estado   emocional   resultante   da   consciência   de   perigo   ou   de   ameaça ,   reais ,  hipotéticos   ou   imaginários .  =  FOBIA ,  PAVOR ,  TERROR in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa Portanto, susto, é aquele medo que nos toma de assalto. Corta a respiração, faz soltar um grito involuntário, levar a mão à boca, fechar os olhos. Eu gosto muito de filmes de terror. E de sustos. Não me fazem dormir mal, nem me causam receios quando me levanto a meio da noite e está tudo escuro. Depois daquele choque de adrenalina, compensado com açúcar das pipocas, acendo a luz da sala, e esta tudo bem. O paranormal não me causa desassossego, ...

Crónica de uma violência anunciada - 2

  Laura permanece sentada no sofá, sem dar conta do tempo a passar. Já não é na mulher morta na praia que pensa. Pensa em Helena. Quando a conheceu, Helena irradiava vivacidade. Tinha olhos de gato que mudavam de cor consoante as emoções. Podiam ser amarelo rancoroso, quase manteiga rançosa, podiam ser brilhantes como pálidas esmeraldas. Tudo em Helena era paixão, era forte, era puro. Plena de convicções e vontades. Laura refletia muitas vezes que gostaria de ser um pouco assim, ter aquela força. Até ver Helena quebrada. Na queda, Helena também foi grandiosa. Partiu-se com estrondo, estilhaços a voar por todo o lado. E foi assim, em cacos, que Laura a encontrou. Foi assim que a apanhou do chão, com o sangue seco no rosto e o lábio inchado, o corpo a tremer, quase nu. A blusa rasgada a denunciar todo o estrago interior. Levou Helena ao hospital e acompanhou-a à esquadra. Sentou-se com ela à beira-mar e pegou-lhe na mão. As ondas recolhiam, enrolavam e espraiavam aos seus pés n...

Querer ou não querer, não é questão

  Somos seres sociais. Os nossos quereres ou não quereres são fortemente condicionados por uma série de regras e convenções. E até convém que assim seja, partindo do pressuposto que vivemos em países democráticos, livres, onde a cada indivíduo é permitido fazer escolhas, dentro dos limites da lei e sem interferir com direitos alheios. Hoje ouvi uma notícia curiosa, mas não inédita, sobre a polémica no Qatar relacionada com o facto de, numa prova do circuito mundial de voleibol de praia, as atletas serem obrigadas a jogar usando calças e camisola, em vez de bikini. São já várias as vozes a repudiar esta imposição. Aqui estamos no outro lado do espectro (ainda não no extremo a que corresponde a violação dos direitos humanos, mas a caminho), quando a sociedade impõe regras que atentam contra a liberdade individual. Não podemos, nem devemos, compactuar com situações limitadoras de direitos fundamentais como seja, neste caso, a perda do direito a envergar o equipamento oficial de dete...

Crónica de uma violência anunciada - 1

Laura olha a mulher encolhida na cadeira à sua frente. Observa-lhe o pulso negro.   Ouve-a com o mesmo desinteresse de quem folheia uma revista gasta, na sala de espera. - Ele não queria magoar-me. – explica ela - Estava só a segurar-me. Eu é que fico marcada com muita facilidade. Laura está cansada. Nota as raízes oleosas do cabelo da mulher, o risco a mostrar a falta de tinta. Não consegue evitar uma ponta de desdém. Entende com repulsa do marido. Pesa-lhe a vergonha por esse pensamento, mas não tanto que a arranque à letargia. - Já pensou deixá-lo? – pergunta, sem verdadeiro interesse. A outra arregala os olhos. Responde-lhe com a voz vibrante de incredulidade. - O meu marido ama-me, doutora! Não fale do que não sabe! Dê-me a receita, por favor, que tenho pressa. Escreve a prescrição. Está cansada. Quer acabar o dia e ir para casa. Pega na folha que sai da impressora e estende-a à mulher. - Aqui tem. Não se engane na dose. Precisa de mais alguma coisa? A mulher...