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Mensagens

A cor das cuecas

  Com o ano a chegar ao fim (e que ano), há uma tendência para as pessoas fazerem o balanço dos 12 meses que passaram e expressar desejos para os 12 que aí vêm. Não vou fazer uma coisa nem outra. Primeiro porque nem sei para onde foram os 12 meses de 2020 e foi um ano tão cheio de situações inauditas que, se por um lado parece impossível que os meses se tenham sucedido, por outro é tal a amálgama de situações e sentimentos, frustrações, medos, alegrias, palpitações e outras coisas, a fugir ao meu controlo, que não entendo como couberam nestes 365 dias. Depois, também não vou evocar desejos nem traçar planos para o próximo ano porque, se há coisa que este nos ensinou, é que Deus diverte-se mesmo com o que nós planeamos. Também não vou comer as passas que detesto e que, obviamente, não têm qualquer utilidade. Não haverá fogo-de-artificio, nem cuecas a estrear com significado na cor. Aliás, acho até que, tendo em conta os agouros que trouxeram as cores da última passagem de ano, d...

amores por acaso

Estava de pé, junto à balaustrada, a ver os carros passarem e a fazer cálculos de cabeça sobre quanto tempo demoraria até ao embate, se saltasse. Diz-se que nos segundos que antecedem a morte uma pessoa revê de uma assentada toda vida. E isso era coisa que não queria. O que queria era, precisamente, o inverso. Pode pensar-se que o inverso de recordar é esquecer. No amor, não é. No amor, o inverso de recordar, é recordar de outra maneira. Como quem não amou.   E então lá estava, com o corpo a pender entre o desalento e o vazio, sem decidir se ia ou se ficava. Não temia a morte. Também não temia a vida. Já a dor, causava-lhe enorme angústia. “Não se morre de amor. – Meditava - Romeu bebeu veneno e Julieta, num impulso corajoso, cravou no peito o punhal do seu amado. O amor não mata ninguém. São os acasos que causam as maiores tragédias.” Um raio de sol irrompeu por entre as nuvens, desenhando-lhe uma pequena figura na mão, semelhante a uma gota. Um melro cantou. A fitar...

Natureza Morta

O André levantou-se do sofá e dirigiu-se à janela. Tinham-lhe dito para esperar e ele esperava. A sua vida, ainda curta, era pautada por obediências. Silencioso, devorava o pouco mundo que conhecia, com olhos grandes e boca calada. Quando passeava pelo pequeno bosque nas traseiras da casa, misturava os passos com as folhas do chão, diluído na paisagem, quase sem existir. Demasiado pequeno para ter memórias da chegada à casa, imaginava ter sido depositado na soleira da porta, dentro de uma selha a fazer vezes de alcofa. Na sua fantasia, a mãe aconchegava-lhe o corpo com um cobertor puído e prometia, numa voz embaciada pelas lágrimas, que voltaria para o buscar. E era esse regresso que ele aguardava para começar a existir. Mas os anos passavam e o André esperava, habitando os seus silêncios e obedecendo à vida que se desenrolava sem a sua interferência. De tanto se misturar com as folhas, convenceu-se que era uma natureza morta. E depois, um dia, apareceu a Fátima. A Fátima que, ...

Clara

  Já não o via há mais de uma década quando empurrou o portão, mas era com o mesmo passo lesto que Clara cruzava a entrada. Com a cabeça deitada na erva e a cauda estendida, não se levantou ao sabê-la chegar. Era como se ali a tivesse esperado todas as tardes desses anos e a confirmação do regresso dispensasse alaridos. Um movimento subtil da orelha traiu a dissimulação. Clara aproximou-se de mansinho, ajoelhou-se e pousou-lhe a mão no lombo. O enorme pastor alemão ergueu-se de um salto e derrubou-a, lambeu-lhe o queixo, o nariz. e soltou gargalhadas canídeas semelhantes a latidos. Ela, abraçando-o, afundou-lhe a cara e as lágrimas no pelo farto do pescoço. Pararam, ofegantes. De pernas cruzadas, afagando as orelhas do cão, ela dilatava as narinas, sorvendo recordações. Guiava as saudades pelos cheiros do mosto, das maçãs maduras, da panela de marmelada e do cachimbo do avô. A infância era feita de cheiros. A segurança cheirava a cachimbo e pelo de cão. A felicidade cheirava a ...

Erros

Ouve-se o crepitar da lareira e a chuva lá fora. Ela está sentada de perna cruzadas, com a manta de xadrez no colo, a cobrir-lhe os medos. Ele está na outra ponta do sofá, rígido. - Quando é que eu errei? – pergunta ele. - Não erraste. Só não estavas certo. Ele fica em silêncio. Remói a resposta. Ouvem-se-lhe os pensamentos pelo meio das gotas de chuva. Ela observa os desenhos da água a escorrer nos vidros e pensa que se parecem com as palavras que ele não diz, a escorrerem-lhe pela pele. Os olhos dele estão presos numa ideia distante, que ela pressente, mas não vê. Finalmente estremece, como a chegar de um sonho. Afaga o queixo com o polegar e o indicador, entreabre os lábios, ensaia um som. Procura o timbre certo. - Pensei amar-te – murmura - Mas depois pensei melhor. Tem chuva na voz. Ela encolhe-se, açoitada. Quer retaliar, ser cruel. Quer que ele saiba como dói quando lhe chove por dentro. Levanta-se. Deixa cair ao chão a manta que enrola os medos. De costas, estende as mãos e...

Porque te gastas

  Estão sentadas nos degraus das traseiras, com o olhar fixo no pneu que pende do ramo do enorme carvalho. Sob aquela copa, na modorra de uma tarde de verão, quando até os mosquitos voavam sonolentos, Rita, Ana e Marta selaram uma promessa. Fora no dia seguinte à morte da menina Laurinha costureira. A menina Laurinha costureira não tinha a idade das pessoas que morriam, teria ainda muitos anos por gastar. Então, com a convicção dos seus oito anos, prometeram que iriam morrer as três muito velhinhas, já com a vida toda gasta. Não sabiam, nessa altura, como são efémeras as palavras que se dizem com os joelhos esfolados e os vestidos a encurtar no fim da estação. O pneu ressequido perdeu protagonismo nas brincadeiras e os livros e diários conquistaram o lugar na sombra. Fumaram o primeiro cigarro, roubado por Rita, a temerária, à gaveta da cozinha da avó. “Os cigarros fazem mal” avisou Ana, a sensata, mas entre tosse e gargalhadas, também experimentou. Com as costas apoiadas n...

Dia Internacional pela Eliminação da Violência Contra as Mulheres

Ora bem, então cá estamos nós a pensar que o confinamento é uma coisa terrível. E é. Mas de entre todo o espectro de cinzas, do branco ao negro, terrível pode ter graus muito distintos.  Imaginemos o que é o confinamento para uma mulher que sofre de violência doméstica. Até ao dia de hoje, em números oficiais, morreram 30 mulheres vítimas deste flagelo. 10 morreram desde agosto. A crónica que aqui deixo é fictícia. Porém, de acordo com o que ouvi esta manhã, tendo em conta os números, todos nós, estatisticamente e apesar de não sabermos, temos contacto com alguma mulher nesta situação. O drama (para além do drama maior) é que muitas vezes é um sofrimento guardado dentro das paredes das suas casas. Então, este é p elas mulheres que morreram, pelas que continuam a sofrer e por todos nós que devíamos fazer muito mais. Vamos estar mais abertos e mais atentos. Por elas. Mariana está na banca da cozinha a lavar os pinceis. Recomeçara a pintar durante o confinamento. Enche telas com...

Casualidades

  Claro que sabias. Assim que puseste o pé direito no degrau da carruagem, tiveste a certeza. O trepidar do comboio sobre os carris embalava-te os pensamentos que trazias à ilharga, naquela bolsa de couro gasta, a tresandar a saudades. Sabias, e, mesmo assim, não te coibiste de pedir um whisky com gelo e de abrir o jornal, como se tudo nesse dia fosse mera casualidade. Os quilómetros passavam-te por baixo dos pés e tu sabias que daquela janela se filtrava a luz da madrugada e que um raio lhe batia nas pestanas ainda por abrir. Ainda assim não hesitaste. E, se alguma dúvida vivia no teu peito, depressa a desfolhaste como as páginas do jornal à tua frente. Soubeste o tempo todo. Na cama, ela abria os olhos e passava a mão pelo teu lado, já frio. Tinha a certeza de uma nota tua colada na porta do frigorifico e talvez um beijo deixado na caneca do café. É que ela, como sabes, não sabia. Ela acordava a pensar na lasanha que ia fazer para o almoço e na lingerie que ia estrear. Ela leva...

As pessoas casulo

  As pessoas de vidro , às vezes, transformam-se em pessoas casulo. Quando se cansam de ser fustigadas pelo vento que não as quebra, recolhem-se, viram-se para dentro e alimentam-se do silêncio. Encerradas no calor do próprio corpo, encolhidas numa alcofa que as priva do mundo e ao mundo delas, deixam a luminosidade lá fora. O casulo não é uma capa para a tristeza, ou mágoa, ou rancor. Antes a proteção de um corpo que se dilui em si próprio, decanta-se ou desencanta-se, ou o inverso. Acorda sonhos e embala razões que tragam transparência nas opacidades dos dias. Fora do casulo o mundo quer saber porquê. Quer entender. Quer razões. Clama por rótulos. Por padrões. E as pessoas de vidro não sabem dizer as coisas que não se medem em palavras. Dentro do casulo, querem apenas sossego e o pensamento adormecido. Nesta metamorfose não se criam asas. Raras vezes, do casulo nascem borboletas. Nem é isso que procuram. Enrolam-se nas dúvidas que conseguem tornar certas e se correr bem, ...

A bolha em que nós vivemos

  Porque temos uma casa luminosa, com cheirinho a assado ao domingo, lençóis de flanela no inverno, chá gelado no verão. Porque temos uma família que se preocupa e amigos que gostam de nós todos os dias. E uma manta sobre as pernas quando vemos televisão. Porque não sabemos o que é fome e às vezes, por engano, chamamos fome à gulodice. Nem sabemos o que é ter nas costas o frio gelado de quem se deita nos passeios. Porque temos dinheiro para o café, um almoço à beira mar, o maço de tabaco ou o livro novo que queremos tanto ler. Porque temos emprego, mesmo quando, ao domingo à noite, nos chateia tê-lo. E porque temos vizinhos que batem à porta a trazer aletria. E um gato e um cão. E daqui a uma semana ou duas pomos lenha na lareira, mais um cobertor na cama ou ligamos o aquecedor. E, quando dezembro chegar, teremos luzes de natal e presentes, sonhos e rabanadas. Mesmo em ano de pandemia. Então, numa tarde de sábado, debruçados sobre as panelas de arroz, tentando multipl...