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Mensagens

Nós, mulheres

  Hoje o dia começou de forma diferente. Estava nervosíssima. Nunca tinha feito nada semelhante e estava nervosa. Levantei-me cedo, tomei pequeno-almoço rápido, fui levar a Ritinha aos vizinhos para não fazer barulho e sentei-me na sala, caderno de apontamentos aberto, garrafa de água, experimentando a luz. Convidaram-me para gravar um pequeno programa sobre o machismo. E eu, a escrever nado em águas que conheço. Já a falar, tenho receio de perder o pé. O meu maior receio era ficar, subitamente, sem nada para dizer e instalar-se um silêncio incómodo, comigo especada a olhar para a câmara e as minhas interlocutoras, embaraçadas, a pensar na argolada em que se tinham metido quando acharam que era uma boa ideia darem-me esta oportunidade. Afinal, nada disso aconteceu. Mais tempo houvesse e mais teríamos conversado porque, afinal, nós mulheres, somos parecidas. Temos dores parecidas. E precisamos de falar sobre elas. E precisamos de ouvir sobre elas. Séculos de história, e de ...

Na (tua) terra seca

Estirado à sombra, na modorra do entardecer, tem os lábios gretados e a garganta seca. Falta-lhe ânimo para beber. Desde que ela o deixou, pesa-lhe o corpo a mover-se e, assim, vai-se afundando na imobilidade do tempo sem ela. Parece-lhe que, a cada alvorada, é um pouco menos homem. Como se uma transparência o fosse consumindo a partir de dentro, até ao momento em que, chegando à derme, o fará desaparecer. Deambula, horas, sem sair do sítio, perdido num monólogo que lhe dirige, esperando que, da ignorância dela, chegue apaziguamento. É num timbre andrajoso que lhe fala: - Sabes, Rita, na curva do caminho sinto o teu perfume de maçã madura. Tantos dias, Rita, mastigando as silabas do teu nome e continuam a ser poucas para te cobrir o corpo. Há vezes, Rita, em que os meus olhos se afogam no horizonte, de tanto perscrutar a tua sombra. Onde estás, Rita, que contigo levaste a vontade que me arrancava à terra seca do chão? Ele, sempre ausente de respostas, tem os sentidos gastos d...

Só.

Olho-te. Nos sonhos, que é quando me sinto à vontade. Longe de vislumbres teus. Sozinha. Foi assim que me deixaste. A apanhar os restos, espalhados pela carpete. Dei-te tudo. Dei-me toda. Consolo-me nas sobras de uma ausência magoada. Dóis-me em todos os ângulos. Aninho-me a um canto. A sala está fria porque me dá a preguiça de a aquecer ou porque me dá ganas de castigar o corpo. Gela-me, ainda, a pele, o inverno que trazias nos olhos. Onde antes fazias fogo, deixaste um negrume de fazer inveja ao carvão. E eu. Olho as mãos que outrora te desenharam contornos. A língua humedece os lábios entreabertos e fecho os olhos beijando-te. Depois revejo-me sozinha. Foi assim que me deixaste. A beijar gotas no ar. Percorro a coxa, num contacto quase fingido, e eriçam-se os pelos ao toque. Há um gemido que arranha a vontade que de ti se lembra. Afasto as pernas, engano a tua chegada com uma caricia que não é tua. Do orgasmo desamparado, desbravo caminho ao afeto por mim própria. Sou eu...

Desististe, Rita

  Entrelaça as mãos atrás da cabeça e espreguiça-se com lassidão. Uma após uma, a impressora cospe as folhas de papel. Satisfeito consigo próprio, bebe um golo de conhaque e permite-se a indulgência de um sorriso. Congratula-se pelo sucesso a que apenas ele assiste. Ela não compreendera e deixara-o a sós, com o que chamara do “seu pedantismo”. Ao vê-la sair, não largara o cigarro nem correra a impedi-la. Sabia que ela voltaria. Depois de ler, envergonhada, reconheceria que, de todas as vezes que os olhos dele não se haviam distraído nela, fora porque estavam focados na plenitude. O arrependimento dela seria o bastante e ele, magnânimo, perdoaria. Por isso, deixara-a ir e continuara a escrever, pouco notando a sua partida. Falando para ela, envolveu-a na narrativa. Não se importava que ela não o escutasse, convicto que estava de lhe adivinhar as reações. Ele próprio formulava as perguntas que ela faria e alvitrava os seus conselhos. Alimentando-se de conhaque, cigarros e p...

A cor das cuecas

  Com o ano a chegar ao fim (e que ano), há uma tendência para as pessoas fazerem o balanço dos 12 meses que passaram e expressar desejos para os 12 que aí vêm. Não vou fazer uma coisa nem outra. Primeiro porque nem sei para onde foram os 12 meses de 2020 e foi um ano tão cheio de situações inauditas que, se por um lado parece impossível que os meses se tenham sucedido, por outro é tal a amálgama de situações e sentimentos, frustrações, medos, alegrias, palpitações e outras coisas, a fugir ao meu controlo, que não entendo como couberam nestes 365 dias. Depois, também não vou evocar desejos nem traçar planos para o próximo ano porque, se há coisa que este nos ensinou, é que Deus diverte-se mesmo com o que nós planeamos. Também não vou comer as passas que detesto e que, obviamente, não têm qualquer utilidade. Não haverá fogo-de-artificio, nem cuecas a estrear com significado na cor. Aliás, acho até que, tendo em conta os agouros que trouxeram as cores da última passagem de ano, d...

amores por acaso

Estava de pé, junto à balaustrada, a ver os carros passarem e a fazer cálculos de cabeça sobre quanto tempo demoraria até ao embate, se saltasse. Diz-se que nos segundos que antecedem a morte uma pessoa revê de uma assentada toda vida. E isso era coisa que não queria. O que queria era, precisamente, o inverso. Pode pensar-se que o inverso de recordar é esquecer. No amor, não é. No amor, o inverso de recordar, é recordar de outra maneira. Como quem não amou.   E então lá estava, com o corpo a pender entre o desalento e o vazio, sem decidir se ia ou se ficava. Não temia a morte. Também não temia a vida. Já a dor, causava-lhe enorme angústia. “Não se morre de amor. – Meditava - Romeu bebeu veneno e Julieta, num impulso corajoso, cravou no peito o punhal do seu amado. O amor não mata ninguém. São os acasos que causam as maiores tragédias.” Um raio de sol irrompeu por entre as nuvens, desenhando-lhe uma pequena figura na mão, semelhante a uma gota. Um melro cantou. A fitar...

Natureza Morta

O André levantou-se do sofá e dirigiu-se à janela. Tinham-lhe dito para esperar e ele esperava. A sua vida, ainda curta, era pautada por obediências. Silencioso, devorava o pouco mundo que conhecia, com olhos grandes e boca calada. Quando passeava pelo pequeno bosque nas traseiras da casa, misturava os passos com as folhas do chão, diluído na paisagem, quase sem existir. Demasiado pequeno para ter memórias da chegada à casa, imaginava ter sido depositado na soleira da porta, dentro de uma selha a fazer vezes de alcofa. Na sua fantasia, a mãe aconchegava-lhe o corpo com um cobertor puído e prometia, numa voz embaciada pelas lágrimas, que voltaria para o buscar. E era esse regresso que ele aguardava para começar a existir. Mas os anos passavam e o André esperava, habitando os seus silêncios e obedecendo à vida que se desenrolava sem a sua interferência. De tanto se misturar com as folhas, convenceu-se que era uma natureza morta. E depois, um dia, apareceu a Fátima. A Fátima que, ...

Clara

  Já não o via há mais de uma década quando empurrou o portão, mas era com o mesmo passo lesto que Clara cruzava a entrada. Com a cabeça deitada na erva e a cauda estendida, não se levantou ao sabê-la chegar. Era como se ali a tivesse esperado todas as tardes desses anos e a confirmação do regresso dispensasse alaridos. Um movimento subtil da orelha traiu a dissimulação. Clara aproximou-se de mansinho, ajoelhou-se e pousou-lhe a mão no lombo. O enorme pastor alemão ergueu-se de um salto e derrubou-a, lambeu-lhe o queixo, o nariz. e soltou gargalhadas canídeas semelhantes a latidos. Ela, abraçando-o, afundou-lhe a cara e as lágrimas no pelo farto do pescoço. Pararam, ofegantes. De pernas cruzadas, afagando as orelhas do cão, ela dilatava as narinas, sorvendo recordações. Guiava as saudades pelos cheiros do mosto, das maçãs maduras, da panela de marmelada e do cachimbo do avô. A infância era feita de cheiros. A segurança cheirava a cachimbo e pelo de cão. A felicidade cheirava a ...

Erros

Ouve-se o crepitar da lareira e a chuva lá fora. Ela está sentada de perna cruzadas, com a manta de xadrez no colo, a cobrir-lhe os medos. Ele está na outra ponta do sofá, rígido. - Quando é que eu errei? – pergunta ele. - Não erraste. Só não estavas certo. Ele fica em silêncio. Remói a resposta. Ouvem-se-lhe os pensamentos pelo meio das gotas de chuva. Ela observa os desenhos da água a escorrer nos vidros e pensa que se parecem com as palavras que ele não diz, a escorrerem-lhe pela pele. Os olhos dele estão presos numa ideia distante, que ela pressente, mas não vê. Finalmente estremece, como a chegar de um sonho. Afaga o queixo com o polegar e o indicador, entreabre os lábios, ensaia um som. Procura o timbre certo. - Pensei amar-te – murmura - Mas depois pensei melhor. Tem chuva na voz. Ela encolhe-se, açoitada. Quer retaliar, ser cruel. Quer que ele saiba como dói quando lhe chove por dentro. Levanta-se. Deixa cair ao chão a manta que enrola os medos. De costas, estende as mãos e...

Porque te gastas

  Estão sentadas nos degraus das traseiras, com o olhar fixo no pneu que pende do ramo do enorme carvalho. Sob aquela copa, na modorra de uma tarde de verão, quando até os mosquitos voavam sonolentos, Rita, Ana e Marta selaram uma promessa. Fora no dia seguinte à morte da menina Laurinha costureira. A menina Laurinha costureira não tinha a idade das pessoas que morriam, teria ainda muitos anos por gastar. Então, com a convicção dos seus oito anos, prometeram que iriam morrer as três muito velhinhas, já com a vida toda gasta. Não sabiam, nessa altura, como são efémeras as palavras que se dizem com os joelhos esfolados e os vestidos a encurtar no fim da estação. O pneu ressequido perdeu protagonismo nas brincadeiras e os livros e diários conquistaram o lugar na sombra. Fumaram o primeiro cigarro, roubado por Rita, a temerária, à gaveta da cozinha da avó. “Os cigarros fazem mal” avisou Ana, a sensata, mas entre tosse e gargalhadas, também experimentou. Com as costas apoiadas n...