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Mensagens

Virada do avesso

  Às vezes o dia vira-me do avesso. Ou as pessoas. Ou o tempo. Às vezes é porque está sol e vento. Ou chuva e frio. Ou porque anoitece demasiado cedo. Ou porque as horas não me chegam. Ou porque o tempo não passa. Fico indecisa se me apetece gritar ou afundar-me no sofá debaixo de um cobertor. Tenho uma vontade imensa de comer porcarias. Não como para não me irritar ainda mais com a balança. Bebo café demais. Fico elétrica para vencer a letargia. Quero praia, mas seria incapaz de tirar a roupa para mergulhar. Tudo me irrita. Sei que fico difícil de aturar. Como quando tenho sono ou fome. Sei que quando estou assim, acaba por levar quem não tem culpa. E, por esse motivo, os anos ensinaram-me a tentar ficar calada. Teclo respostas azedas a e-mails estúpidos. Apago e rescrevo, com secura diplomática. Ignoro mensagens e chamadas. Se não querem uma resposta torta, não falem comigo. Desculpem lá, mas “jogo de cintura” não faz o meu género. Nem gente com a mania de que é don...

De que falam as saudades?

De que falam quando, sentada, sozinha num quarto, escuto uma música triste? Que palavras se afogam em rios de silêncios feitos de notas musicais? Há sempre tanto que fica por dizer. Ou por vergonha, ou por não saber articular, ou para poupar os outros às misérias do meu sofrimento. E então não falam. As saudades. É mais fácil para mim e não constranjo os demais. Mas calá-las não quer dizer não as sentir, pois não? - Sê coerente – digo para o vazio. Gaja não chora. Para onde te foram as ganas de independência? És tão independente como o gato no telhado. Queres percorrer horizontes, mas, quando arrefece, voltas a casa ronronando, à espera da malga cheia e de festas na barriga. Quem te vê, menina, quem te ouve. Pois não és tu que gostas de solidão? De quartos vazios, de praias desertas? Não és tu que foges a abraços prolongados, que disfarças para fugir a um beijo?   Mas também és tu que saltas da cama meia hora antes do despertador para não a deixares sair sem l...
  Certa noite, há uns anos, tive uma situação desconfortável com um colega de trabalho. Aconteceu num jantar, em que toda a gente estava a beber, a dançar, num clima de descontração e boa disposição. O colega não me agradava especialmente, mas, para não parecer antipática, aceitei dançar com ele.   Agarrou-me e falou-me de uma forma abusiva. Não fui capaz de reagir. Não abri a boca, não o empurrei, nada. Dancei até acabar a música.   Fez-me sentir humilhada. Fez-me sentir culpada. Pela roupa que escolhi, por ter bebido uns copos, por me rir, por aceitar dançar. Fez-me sentir suja e reles.    Achei que me tinha “posto a jeito”.   Demorei uns 5 ou 6 anos a contar ao meu marido. Tive vergonha. Tive receio que, também ele, achasse que a culpa fora minha.  Não me queixei. Continuamos a trabalhar no mesmo corredor. A dizer boa tarde ou bom dia.   Nunca mais fui a um jantar de trabalho.   #metoo   Não sei se é por também...

beira-mar de 6ª feira

 8.15 de uma manhã de sexta feira. Fui treinar cedo e estou sentada, no areal vazio, com um copo de café na mão. Não oiço música porque quero escutar o rumor das ondas. O restolhar quando se fazem espuma. O sussurro no momento que enrolam. Há vidas melhores, dizem, mas eu não acredito. Eu gosto desta. Eu quero esta. Com todas as possibilidades de evolução e mudança. Quero esta, mesmo em anos de pandemia, longe dos meus, longe dos amigos, carente de abraços e beijos sem medo. Quero esta, apesar dos dias em que não foi (não é) fácil. Ou, até mesmo, por causa deles. Há tanto que podia ser diferente, que podia ter feito de outra forma, ter optado pelo outro caminho, na bifurcação. Mas não. E aqui estou. Inevitável, como as ondas que rebentam e moldam a beira-mar. Também eu em matizes de azuis, ou verdes, ou cinzentos carregados de chumbo, que tornam os dias pesados de angústia. É também eu na leveza da espuma, que se solta, quase voa, e sonha. Também eu, sólida mas maleável...

De Philip a Sócrates

  Começo já por avisar que estou de mau humor, portanto daqui não vai nada de bom. Quem quiser continuar a ler, faça favor, mas fica prevenido que vai ser um bocado ácido. Adiante. O primeiro assunto que me causou um certo engulho foi a morte de Philip, Duque de Edimburgo. O príncipe—consorte (ou com sorte, como queiram). Alguns acharão que lhe saiu a sorte grande. Ele, por assim dizer, um refugiado vindo da Grécia. Outros dirão que lhe custou cara a entrada na monarquia britânica. Queria ser rei. Não foi. Dizia um dos filhos, a propósito da vida do pai, como ele foi fantástico no apoio à mãe e como a deixou sempre brilhar, sem lhe tentar fazer sombra. Ouvi um comentário semelhante, esta manhã, num programa de rádio sobre desigualdade de género, que havia sido feito a propósito do, também artista, marido da pintora Vieira da Silva. Que também ele se apagara, para deixar sobressair a mulher. Ora vamos lá por os pontos nos is. Eles, os abençoados maridos, não “deixaram” coisa n...

Estamos no fim da Quaresma.

Como católica, este costuma ser o período do ano em que me recolho, em que me revejo, em que sou juiz de mim própria, em que me proponho a fazer uma caminhada melhor. Costumo chegar ao Domingo de Páscoa com a confiança de que, apesar de estar muito aquém, estou a caminhar e vou no sentido certo. E isso conforta-me e prepara-me para o que vier. Então, o que mudou? Não foi a fé. Não foi a certeza de que existe algo muito maior do que eu. Não foi sequer a certeza de que um dia, quando isto aqui deste lado chegar ao fim, vou prestar contas do que fui, do que fiz, dos meus erros e tentar equilibrar a balança com o que fiz de bom, o que dei, o que amei. Estou convencida de que assim será e estou preparada para aceitar e assumir o caminho que percorrer até lá. Nada disso mudou. O que mudou, foi o que sinto que pesará nesse juízo. Não porque mudaram as crenças que tenho naquilo que é certo, que é importante, que vale. Pelo contrário. O que mudou é que deixei de acreditar no juízo dos h...

Crónica de uma violência anunciada - 5

  É muito cedo. Os candeeiros da rua ainda estão acesos e o edifício está quase vazio. Apenas um agente, sentado à secretária, ouve a mulher à sua frente, com uma expressão condescendente. Faz rabiscos no bloco quadriculado, enquanto a pressão nas têmporas lhe recorda os excessos da noite anterior. A mulher tem uma equimose abaixo do olho esquerdo e um corte no lábio. A voz é fatigada, vazia de emoções. Apenas o brilho nos olhos de gato, que mudam de tom enquanto ela fala, mostram resquícios de uma força antiga. Na noite anterior, quando no telejornal vira a mulher que apareceu morta na praia, Helena tomou uma decisão. De manhã pensou ligar a Laura e pedir-lhe que a acompanhasse à esquadra, como fizera há alguns anos, mas foi impedida pela vergonha. Retirara a queixa, nessa altura, e deixara de responder às chamadas preocupadas de Laura. Há de ligar-lhe mais tarde, dizer-lhe que desta vez será mais forte. O agente (Victor Alves, é como se chama) parece distraído e Helena não te...

Crónica de uma violência anunciada - 4

A água arrefeceu. Laura acorda com frio e demora a perceber onde está. Tem a pele dos dedos engelhada e o pescoço dorido, quando se levanta para abrir o chuveiro. De pé, deixa a água quente escorrer-lhe pela cabeça, fechando os olhos. Tem a respiração irregular, revive, perturbada, as sensações do sonho. Acomete-a a impressão de que havia um sinal oculto, no que sonhou. Como um aviso. Num esforço metódico recordar os detalhes: Estava numa sala austera, mal iluminada, revestida a painéis de cerejeira. No centro da sala, exatamente no ponto onde uma luz difusa incidia, encontrava-se uma mulher, de braços cruzados sobre o peito e o olhar cor de desalento. As feições eram tão suaves, que pareciam a desvanecer. Uma voz forte, polida como os painéis das paredes, fez-se ouvir “acha que alguém acredita nessa história?” E a mulher, ouvindo, encolheu-se mais sobre si própria. Havia pessoas na penumbra, das quais apenas se distinguiam contornos, mas Laura conseguia perceber que eram mai...

Crónica de uma violência anunciada - 3

  A casa está silenciosa. No telemóvel, pisca a luz de nova mensagem. Sem abrir, Laura vê as primeiras palavras: “ainda estou atrasado…”.  De novo, sente invadi-la uma sensação que se assemelha a um cansaço muito profundo. Decidida a sucumbir-lhe, prepara um banho de imersão. Vê o fio de gel escorrer para o fundo da banheira, e deixa acumular-se uma quantidade maior que o necessário. Abre a torneira deixando a espuma formar-se, enquanto acende velas e põe a tocar o programa radiofónico da noite. Acha reconfortante a voz profunda do locutor. Sente-se menos sozinha. Despe-se devagar, admirando os contornos do corpo à luz tremeluzente das velas. Ocorre-lhe que é um desperdício e zanga-se. Ela é um desperdício, pensa. O seu corpo, que o marido não venera, é um desperdício. Queria outro olhar de admiração para além do seu. Percebe que anseia pela validação masculina e zanga-se ainda mais. Ao entrar na banheira, porém, deleita-se com o contraste entre a água quente e a espuma fr...

Sustos

    O que é um susto? O que é que me assusta? Na sequência de uma conversa a propósito de filmes de terror, dei por mim a meditar sobre o assunto. Susto Medo   profundo   e   repentino ;  sobressalto .   Medo   Estado   emocional   resultante   da   consciência   de   perigo   ou   de   ameaça ,   reais ,  hipotéticos   ou   imaginários .  =  FOBIA ,  PAVOR ,  TERROR in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa Portanto, susto, é aquele medo que nos toma de assalto. Corta a respiração, faz soltar um grito involuntário, levar a mão à boca, fechar os olhos. Eu gosto muito de filmes de terror. E de sustos. Não me fazem dormir mal, nem me causam receios quando me levanto a meio da noite e está tudo escuro. Depois daquele choque de adrenalina, compensado com açúcar das pipocas, acendo a luz da sala, e esta tudo bem. O paranormal não me causa desassossego, ...