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Mensagens

Mudanças

  Vais ter de mudar de casa, lamento, já não cabes aqui. Empacotei as tuas coisas. Quero que saias já. Fiz a partilha sozinha porque a casa é minha. Levas as noites quentes, o meu sorriso e a televisão. Ah, e levas também os orgasmos. Metade eram falsos. Com as madrugadas fico eu. São as horas em que escrevo melhor. Também guardo o cobertor e o gato. Não precisas de confortos. A culpa, deitei fora. Não tapava nem frinchas. Pelo meio das arrumações, encontrei um bilhete, pingado de café, “compra-me tampões. SEM APLICADOR!”, com um coração no canto, a piscar o olho. Rio-me. Sobra de nós uma hemorragia inútil. Abro uma garrafa de tinto e sento-me, no chão da cozinha, a brindar aos infortúnios. Tens à porta a mala e dois caixotes. Levas o bengaleiro, detesto os casacos pendurados na entrada. E os amigos, com quais ficas? Que sejam eles a escolher. Por mim, dois ou três bastam. Não toques à campainha. Vê lá se, ao menos desta vez, trazes a chave contigo. Deitei a tua escov...

Colo e lãs

  Vai , rua fora, com o gorro vermelho enterrado até às orelhas. A manhã fria entra-lhe pelos ossos. Ouve música, alto, passeando a tristeza pela métrica da letra. Ao passar por uma montra para, observando a silhueta. Leva a mão ao gorro e cai-lhe, no ombro, açúcar do éclair esborrachado que traz no bolso. Come bolos com creme, quando está triste. Na outra mão, dependurado, um ramo de antúrios. (Trago flores e um doce, avó). Sentavam-se na cozinha e ela, embalada pelo bater das agulhas, molhava a torrada no café com leite. As pupilas, tremendo, acompanhavam o correr da malha, a lã grossa de ponto incerto, as mãos nodosas.   “Vou fazer-te um gorro, Ana. Que cor queres?”, “Quero bege, avó”. Na semana seguinte, o novelo de lã vermelha na cesta, ao lado da poltrona. Xaile pelas costas, os cotovelos entalados entre os braços de veludo puído. “Gostas, Ana?”, “Gosto, avó”. E o leite morno a apagar as lágrimas na garganta. Numa tarde húmida, uma malha a fugir, um remate a mais...

Redenção

Estão sentados, frente a frente, numa mesa junto à janela. Lá fora, cintilam gotas de chuva e luzes de Natal que, repara ela, chegam cedo demais. Leva o copo aos lábios, as pestanas a encerrar emoções. Esconde o desconcerto. Ele prossegue, ignorante. “Precisamos de uma barriga de aluguer”, diz, sem perceber como a voz cava embate nela. “Não há ninguém melhor que tu”, continua, e as palavras chocam na transparência dela, na lâmina que a envolve sem ele ver. Foram anos a prometer-lhe paixões impossíveis e ele, perdido noutros encantos, amando noutros lugares. Voltando, de tempo e tempo, à bolha de vidro dela. E ela acolhendo-o nos regressos, deixando-o escorregar-lhe na pele fria. Quando lhe apresentou o Miguel, ela soube. “Desta vez é a sério”, disse-lhe ele, sem a ver tornar-se opaca. E, diante da cegueira dele, sem redenção para os pecados que não conheceu, ela enterrou o amor num abismo fundo. Ele, olhos fraternos, para lá da redoma das paixões, a amá-la sem imaginar como isso a fi...

Hold me on pause

  Tudo preparado. As almofadas aconchegadas, a manta dobrada ao lado, a garrafa de vinho aberta. E um copo, só. Chocolates com recheio de caramelo, o sabor que inventei para a tua língua. A imagem está em pause : minuto 00:00. - Estás pronta? - Sim. Play . Saltamos o genérico. Generalidades não nos seduzem. Encho o copo. Os minutos passam pelo ecrã. Aumento o volume, a expectativa cresce, abafo um grito. Não ouves, mas sei que adivinhas. Sei que sorris. Engulo em seco. Levo o copo aos lábios. O anseio aquece-me o ventre. Aperto o comando. - Para. Fiz rewind sem querer, já não sei onde estou. - Eu espero. Disfarças mal a impaciência, eu pressinto. Tens pressa? Omito a pergunta. Fui eu que escolhi o filme. Disse-te porquê? Julgo que não. Temos por costume evitar lugares-comuns. - Cheguei. Prosseguimos em slow motion , o caramelo derrete-me nos dentes e fecho os olhos por instantes. Terei de mentir depois. Fingir que não perdi nada. E preciso de mais vinho. P...
Tu que és valente, que não choras, tu sabes que tens a mania, não sabes? Eu conheço o arquivo de textos, excertos de livros, fotografias, cenas de filmes, com que escarafunchas cicatrizes antigas até sangrar um bocadinho. Eu sei desses dias em que a respiração te encrava no diafragma. Sei da playlist que te serve de banda sonora, empanturrando-te de agonias alheias, até não te restarem tons de rosa e não haver tatuagem que te salve. Mesmo se quisesses. E não queres. Então, lambes a lagrima que te escorre até ao queixo, enquanto ouves em loop a mais triste das músicas tristes. Recusas oportunidades que te resgatem à tristeza. Queres chorar por inteiro, a começar na sola e a acabar no cabelo. Se rires, culpar-te-ás porque esqueceste. Montas um carrossel entre os ouvidos, movido a melancolia e palavras mal ditas. Ficas zonza. Castigas-te com remorsos antigos e com as falhas que inventaste. Suspendes o baloiço, com os pés e os sonhos enterrados no chão. Empenhas-te na visita sol...

amig@s

@s amig@s especializam-se e apuram-se. olham-nos, com aquele ar de mete-nojo, e a gente já sabe que dali não sai sem deitar tudo cá para fora. irritam-nos, andamos às turras, trocamos insultos. com os outros, contemo-nos. se gostar de ti, experimenta-me, mando-te f*%# sem hesitações. e grito-te. se me calar, preocupa-te, é porque na minha mente já estás em processo de decomposição. não me abraces, que eu arranho. nem me passes a mão pelo pelo. não me faças falar, que eu choro. eu sou forte, eu sou forte, não se passa nada, foi só uma MUAAAHHH…. oh, deixa-te disso, anda mas é beber um copo. deixa lá o Covid, dá-me um abraço. dá-me dois. esquece as calorias e dá-me outro copo. dá-me um beijo na testa e eu caio de joelhos tenho que te dizer isto. são uma data de merdas que não interessam a ninguém e não te vão fazer mais feliz, nem te são uteis, mas tenho que te dizer. sabes como é, sinceridade acima de tudo. sei? não, não sei. a mim, interessa-me a lealdade. e essa, amig@, é na hora. a...
  Gosto de ti quando estás triste. Gosto de ti quando tens medo. Gosto de ti quando a ansiedade te impede de ouvir o que te digo. ou quando te zangas com o que ouves. Gosto de ti sempre. Claro que gosto de te ver sorrir. Mas não é pelo sorriso que gosto de ti. Não, não tens de estar feliz. Quando estiveres triste, estarei aqui, à espera que me contes das razões que te entristecem. Ou que não digas nada, se não quiseres. Manda-me embora, se quiseres estar só. Se me chamares, eu volto.  Podes demorar os teus tempos, todos os tempos. Eu tenho tempo. Para ti, tenho sempre tempo. Mesmo que andes triste muitas vezes. Mesmo que as razões me pareçam parcas ou frouxas. Ou que nem tenhas razões. Se estiveres triste, se te zangares, se te acometer a angustia, continuo aqui. Não para te convencer de que não há motivo para tal. Não para te dizer que vai ficar tudo bem, que está tudo bem. Porque não está. E não faz mal. Não te pedirei para sorrires e seres forte se precisares de chora...

Embates

  Ela. Senta-se numa rocha, olhando o mar. Aprecia as marés cinzentas, as ondas cheias, o embate impiedoso que rói a pedra, devagar. De lábios entreabertos, saboreia o sal que dança no ar. Lembra-se de pessoas deitadas no areal, em tardes mornas de verão. Famílias felizes, namorados encantados, crianças pequeninas a tatear o mundo com os dedos dos pés. Uma senhora que passeia o cão, os amigos no café, entre cerveja e tremoços, as amigas, pelo meio dos copos de vinho, a maldizer os maridos. Todos ocultando desejos. Pensa no amor. Nas amizades. Nos amantes. Nas convenções. Um dia, alguém estratificou e designou os sentimentos. Ela teve um amigo que não esquece, apesar dos amores que se lhe seguiram e pelos quais o abandonou. Podiam ter-se apaixonado, se ele se apaixonasse por mulheres. Valeu-lhes isso, ou ter-se-iam arruinado numa dolorosa história de amor. Ainda assim, amaram-se, claro, até ao dia em que ele se despediu do mundo, sem se despedir dela. Continua a procurar, noutro...

Quase 45

  Perto de completar quatro décadas e meia, já dá para ir tendo uma ideia do que isto é. Do que conta. Do que importa e do que não vale um chavelho. Ao longo da minha existência, (que deve andar perto do meio, julgo eu, que tenho a ambição de chegar aos 100, com lucidez e saudinha), fui passando por algumas situações extremas que me obrigaram a alinhar os pratos da balança. Quem não? Talvez uns poucos, afortunados ou distraídos. O extremo, para mim, é a possibilidade de perder ou ver sofrer as pessoas que amo. Claro que há outro nível de situações extremas, não tão íntimas, que me abalam e dão que pensar, mas que, por não mexerem diretamente comigo, não sendo eu uma Madre Teresa, não me abanam até aos alicerces. Se deviam? Talvez devessem. Mas ainda não atingi esse nível de abnegação. Quem sabe, nas próximas décadas. Por enquanto, as minhas grandes vulnerabilidades residem no sofrimento dos meus. Há poucas coisas tão cruéis como vermos faltar o ar a alguém, sem conseguirmos s...

Lealdade

  Lealdade é fácil, quando é às causas em que acreditamos ou às pessoas de quem gostamos. Difícil é ser Leal para além das ideias e sentimentos, ou permanecer leal apesar deles. Difícil é calar a boca quando a vontade de levantar a voz se engasga na garganta. Baixar os olhos quando cremos que a razão está do nosso lado. Difícil é encolher o nosso discurso até ao limiar em que deixa de ferir compromissos que, apesar de desagradarem, assumimos e temos de honrar. É quando caímos naquele escreve, apaga, escreve, apaga, até moldar as palavras a que algumas posições obrigam. E aprender a cultivar silêncios, tentando retirar-lhe a eloquência. Sim, porque há silêncios que são verdadeiros discursos. Há até presenças, no lugar certo, aos olhos errados, que se prestam a escrutínios e autos de má-fé. E então a lealdade cai, por vezes, numa espécie de cinismo disfarçado de uma placidez que não se sente. Tudo para não quebrar conveniências que, no fim se calhar não importam. E nem basta a ...